Uma política de uso de IA é um documento curto que diz à equipe quais ferramentas pode usar, quais dados nunca podem entrar nelas e quem responde por cada decisão. Uma versão curta pode ser o ponto de partida, desde que cubra os riscos reais e tenha uma pessoa responsável por mantê-la atualizada.
Sem regra escrita, cada pessoa decide sozinha. É assim que a planilha de clientes acaba num chatbot gratuito ou que um texto gerado por IA vai para o cliente sem ninguém ler. Este guia mostra o que a política deve conter, traz um modelo de cláusulas e explica como implantar e como ela se conecta à LGPD. Ele não substitui parecer jurídico: peça a revisão final do seu advogado ou do encarregado de dados.
Resumo rápido
- A política precisa responder a nove pontos: ferramentas aprovadas, dados proibidos, revisão humana, transparência com clientes, propriedade intelectual, registro de uso, responsáveis, sanções e revisão periódica.
- A regra mais útil é a lista de dados: o que pode, o que não pode e o que só pode sob condição.
- Combine regras com uma alternativa aprovada e um canal para dúvidas, evitando que a equipe precise decidir sozinha.
- A LGPD (Lei 13.709/2018) já se aplica sempre que a IA toca dados pessoais. A política é uma das formas de cumprir o dever de adotar medidas de segurança e boas práticas.
- Comece pequeno, teste com um grupo e revise a política em datas fixas.
Por que uma pequena empresa precisa de uma política
Ferramentas de IA generativa (que produzem texto, imagem ou resumo a partir de um pedido, chamado de prompt) são fáceis de abrir no navegador. Isso é bom para a produtividade e ruim para o controle. Sem regra, a empresa não sabe quais ferramentas a equipe usa, que dados saem dela nem quem revisa o resultado.
O uso de ferramentas não aprovadas é conhecido como shadow AI, ou IA nas sombras. O levantamento interno deve perguntar o que a equipe já usa e por quê, sem presumir que todo uso é malicioso.
A LGPD exige medidas de segurança e prevê regras de boas práticas nos arts. 46 e 50. Uma política ajuda a organizar essas medidas, mas não comprova conformidade sozinha. Para o contexto geral, leia o guia LGPD e IA: como usar inteligência artificial na empresa sem expor dados.
O que a política deve conter
Cada item abaixo vira uma cláusula curta. A tabela resume o que cada um resolve.
| Item | Pergunta que responde | Exemplo de decisão |
|---|---|---|
| Ferramentas aprovadas | O que posso usar? | Uma lista com nome, plano contratado e dono |
| Dados proibidos | O que nunca entra? | Senhas reais e dados de clientes sem avaliação prévia |
| Revisão humana | Quem confere o resultado? | Nada sai para cliente sem leitura de uma pessoa |
| Transparência | Quando aviso o cliente? | Aviso quando a IA atende ou produz conteúdo relevante |
| Propriedade intelectual | De quem é o material? | Não colar conteúdo de terceiros sem direito de uso |
| Registro de uso | Como comprovo o que foi feito? | Planilha simples com data, ferramenta, finalidade e responsável |
| Responsáveis | Quem decide e quem responde? | Um dono da política e um contato para dúvidas |
| Sanções | O que acontece se descumprir? | Orientação, advertência e medidas previstas no regulamento interno |
| Revisão periódica | Quando atualizo? | Data fixa e gatilhos, como nova ferramenta ou incidente |
Ferramentas aprovadas
Liste as ferramentas liberadas, o plano contratado e quem é o administrador. Diferencie contas de empresa de contas pessoais. Avalie controles de acesso, retenção, treinamento de modelos, exclusão e contrato de tratamento de dados; o nome comercial do plano não comprova segurança. Inclua um caminho simples para pedir a aprovação de uma ferramenta nova.
Dados proibidos e condicionados
Este é o coração da política. Defina categorias e diga, para cada uma, se pode entrar na ferramenta aprovada, se pode entrar numa conta pessoal e sob qual condição. A tabela da próxima seção traz um ponto de partida.
Revisão humana
A regra deve dizer quem confere fatos, fontes e adequação do resultado antes de usá-lo. Para decisões que afetam pessoas, como seleção de candidatos, crédito ou cobrança, exija revisão humana qualificada. A LGPD, no art. 20, dá ao titular o direito de pedir a revisão de decisões tomadas unicamente com base em tratamento automatizado de dados pessoais que afetem seus interesses.
Transparência com clientes
Defina quando a empresa avisa que usou IA. Um atendimento por chatbot deve se identificar como automatizado e oferecer o caminho para falar com uma pessoa. Para outros conteúdos, avalie contratos, normas setoriais e risco de enganar o público antes de decidir sobre o aviso. Se a IA tratar dados pessoais de clientes, o aviso de privacidade deve refletir isso.
Propriedade intelectual
Há dois lados. Primeiro, o que entra: verifique direitos, licenças e obrigações de sigilo antes de enviar textos, imagens, códigos ou contratos de terceiros. Segundo, o que sai: a proteção por direito autoral de conteúdo gerado por IA é tema em debate, e a Lei de Direitos Autorais (Lei 9.610/1998) não foi escrita para isso. Não presuma exclusividade sobre um resultado gerado. Para materiais de marca, registre a contribuição humana e revise direitos de terceiros. Verifique também o que os termos da ferramenta dizem sobre o uso do resultado.
Registro de uso
Registre finalidade, responsável, ferramenta, categoria de dados e aprovação, sem copiar dados confidenciais para a planilha. Esse controle operacional complementa o registro das operações de tratamento previsto no art. 37 da LGPD; não o substitui automaticamente.
Responsáveis
Nomeie um responsável pelo documento e um canal para dúvidas. Não confunda essa função com o encarregado de dados. A Resolução CD/ANPD nº 2 dispensa determinados agentes de pequeno porte de indicar encarregado, exigindo canal com o titular. O enquadramento tem condições e exclusões, inclusive por tratamento de alto risco. Confirme se a empresa pode usar essa dispensa antes de aplicá-la.
Sanções e revisão periódica
Não invente punições novas no texto. Remeta ao regulamento interno e ao contrato de trabalho, e deixe claro que o primeiro passo é orientar. Prefira estimular o relato de erros: quem avisa cedo que colou um dado errado deve ser ouvido, não punido, porque o aviso permite agir a tempo. Marque uma revisão em data fixa e defina gatilhos para revisar antes, como nova ferramenta, mudança de contrato ou incidente.
Tabela de dados: o que pode, o que não pode e sob qual condição
Use a tabela como ponto de partida e ajuste ao seu negócio. A coluna “ferramenta aprovada” vale para contas da empresa, com termos revisados. A coluna “conta pessoal ou gratuita” vale para qualquer ferramenta fora da lista.
| Tipo de dado | Ferramenta aprovada | Conta pessoal ou gratuita | Condição |
|---|---|---|---|
| Texto público (site, material já publicado) | Pode | Pode | Verificar direito de uso e revisar o resultado |
| Rascunhos internos sem dado pessoal nem segredo | Pode | Condição | Só se a política permitir e não houver sigilo ou informação estratégica |
| Dados pessoais comuns de clientes (nome, e-mail, telefone) | Condição | Não pode | Só com finalidade definida, base legal e o mínimo necessário, de preferência mascarados |
| Dados pessoais sensíveis (saúde, biometria, origem racial ou étnica, religião) | Condição | Não pode | Só com autorização do responsável pela política e hipótese legal do art. 11 da LGPD |
| Dados de funcionários e candidatos | Condição | Não pode | Nenhuma decisão automatizada final, com revisão humana |
| Dados financeiros e contratos de clientes | Condição | Não pode | Verificar cláusulas de confidencialidade do contrato |
| Segredos de negócio (preços, estratégia, código-fonte) | Condição | Não pode | Só após revisar contrato, acesso, retenção, exclusão, sigilo e uso para treinamento |
| Senhas, chaves de acesso e tokens reais | Não pode | Não pode | Não enviar segredos ativos ao contexto de um assistente |
| Material protegido de terceiros | Condição | Não pode | Só com direito de uso ou autorização |
Para reduzir risco no caso dos dados pessoais, retire o que não é necessário antes de colar. Substitua nomes por códigos e apague CPF e telefone quando eles não mudam a resposta.
Modelo de cláusulas em linguagem simples
Adapte o texto ao seu negócio. Ele é um ponto de partida, não um documento jurídico pronto.
- Objetivo. Esta política explica como usamos inteligência artificial no trabalho com segurança, respeito aos clientes e responsabilidade.
- Ferramentas. Use apenas as ferramentas da lista aprovada. Para pedir uma ferramenta nova, fale com [responsável].
- Dados. Nunca envie senhas ou chaves de acesso reais. Dados pessoais, inclusive de saúde, só entram em ferramenta aprovada após avaliação das condições da tabela e da hipótese legal aplicável.
- Revisão. Quem usa a IA é responsável pelo resultado. Leia, confira fatos, números e fontes antes de enviar ou publicar.
- Clientes. Atendimentos automatizados devem avisar que são automatizados e oferecer contato com uma pessoa. Não use IA para fingir ser humano.
- Autoria e direitos. Não envie material de terceiros sem direito de uso. Trabalhos estratégicos devem ter participação humana relevante.
- Registro. Anote em [planilha] os usos que envolvem dados pessoais ou entregas a clientes.
- Dúvidas e incidentes. Se colar um dado por engano, avise [responsável] no mesmo dia. Avisar cedo é sempre melhor.
- Consequências. O descumprimento será tratado conforme o regulamento interno, começando por orientação.
- Revisão da política. Este documento é revisado a cada [período] ou quando houver mudança relevante.
Como implantar em cinco passos
- Levante o uso real. Pergunte à equipe, sem punição, quais ferramentas já usa e para quê. Registre as tarefas e os tipos de dados envolvidos.
- Escolha as ferramentas aprovadas. Leia termos, planos e configurações de privacidade. Avalie controles e contratos antes de liberar dados da empresa.
- Escreva a primeira versão. Use o modelo acima e a tabela de dados. Use exemplos que a equipe reconheça.
- Teste com um grupo pequeno. Peça que apliquem a política por duas semanas e anotem o que ficou confuso.
- Divulgue e treine. Apresente a política numa conversa de meia hora, com exemplos reais, e deixe o texto em local fácil de achar.
Depois da implantação, escolha uma data de revisão. Uma política desatualizada dá falsa sensação de segurança. Para escolher ferramentas por tarefa, veja o guia de ferramentas de IA para produtividade.
Relação com a LGPD e com a ANPD
A política não substitui as obrigações da LGPD, mas as organiza. Quando a IA trata dados pessoais, a empresa continua precisando de finalidade definida, base legal, segurança e transparência com o titular. O art. 6º da lei lista princípios como finalidade, necessidade e segurança, e é nele que se apoiam regras como “use o mínimo necessário de dados”.
A ANPD, Autoridade Nacional de Proteção de Dados, publica guias para os agentes de tratamento. Para empresas menores, o guia orientativo sobre segurança da informação para agentes de tratamento de pequeno porte reúne medidas administrativas e técnicas, com checklist, e serve de apoio para a parte de segurança da sua política. A página oficial também disponibiliza um modelo de registro das operações de tratamento, útil para o item de registro de uso.
O responsável deve registrar dúvidas e encaminhar situações que exigem avaliação jurídica, sem transferir a decisão de conformidade para o chatbot.
Exemplo: clínica de fisioterapia em Goiânia
Uma clínica de fisioterapia em Goiânia tem seis profissionais e uma recepção. A recepcionista começou a colar mensagens de pacientes num chatbot gratuito para responder mais rápido, e uma fisioterapeuta resumia evoluções clínicas numa conta pessoal. A dona da clínica soube por acaso, numa conversa de corredor.
Ela levantou o uso real e suspendeu o envio de prontuários enquanto avaliava uma solução. Depois revisou contratos, controles de acesso e condições legais com apoio especializado e escreveu uma política curta. As regras principais: dados de saúde só na ferramenta aprovada e com autorização, nenhum documento de paciente em conta pessoal, mensagens de recepção sem nome completo quando o nome não muda a resposta e revisão humana de tudo o que sai para o paciente. A dona da clínica ficou como responsável pela política e consultou o advogado para validar o texto e o aviso de privacidade. Marcou revisão para dali a seis meses. O exemplo é ilustrativo.
Erros comuns
- Proibir tudo. Combine a restrição com alternativas aprovadas e explicação das regras.
- Copiar um modelo pronto sem adaptar. Regras que não refletem o seu negócio não são seguidas.
- Documento longo demais. Se ninguém lê, não protege. Prefira poucas páginas e exemplos.
- Não nomear um responsável. Sem dono, a política envelhece e as dúvidas ficam sem resposta.
- Esquecer a revisão humana. Defina quem confere o resultado antes do envio.
- Tratar a política como um evento único. Ferramentas e termos mudam, e a política precisa mudar junto.
- Punir quem avisa do erro. A equipe passa a esconder incidentes.
Perguntas frequentes
Toda empresa precisa ter uma política de uso de IA?
A necessidade e o conteúdo dependem das atividades, dos contratos e das normas aplicáveis. Uma política ajuda a distribuir responsabilidades; sua existência, isoladamente, não basta para cumprir obrigações legais.
Posso deixar a equipe usar contas pessoais de IA?
Para tarefas sem dado pessoal, segredo ou material de terceiros, o risco é menor. Para o resto, prefira contas da empresa, que oferecem controles administrativos. Deixe isso explícito na tabela de dados.
Preciso avisar o cliente que usei IA?
Adote identificação do atendimento automatizado como regra interna e ofereça um canal humano. Para conteúdo e outros usos, avalie contratos, regras setoriais e transparência sobre dados pessoais. Não apresente essa recomendação como uma obrigação legal idêntica para todos os casos.
Quem é responsável se a IA errar?
A responsabilidade jurídica depende da relação, do dano e das normas aplicáveis. Internamente, defina quem executa, revisa e autoriza o uso. A política não elimina a responsabilidade da empresa nem transfere toda a obrigação ao funcionário.
Com que frequência devo revisar a política?
Escolha uma data fixa, como a cada seis meses, e defina gatilhos para revisar antes: nova ferramenta, mudança de contrato, incidente ou mudança na legislação.
Fontes e leitura recomendada
- Lei nº 13.709/2018 (LGPD), texto compilado no Planalto
- ANPD: guia orientativo sobre segurança da informação para agentes de tratamento de pequeno porte
- ANPD: Resolução nº 2, regras e condições para agentes de pequeno porte
- Lei nº 9.610/1998 (Lei de Direitos Autorais), no Planalto
- NIST: AI Risk Management Framework, referência internacional para gestão de riscos de IA (em inglês)