A empresa se protege de golpes com voz clonada e deepfake (vídeo ou áudio falsificado por inteligência artificial) com regras que não dependem de reconhecer a falsificação: confirmar qualquer pedido de dinheiro ou dado por um canal já conhecido, combinar uma palavra-código para emergências reais e exigir dupla aprovação em pagamentos e Pix. A voz pode parecer convincente. O processo é que não pode ter atalho.
O golpista usa urgência, autoridade e sigilo (“o diretor está em reunião, não ligue para ninguém”). Quem segue um roteiro fixo de verificação tira o efeito dessas três pressões. Este guia reúne os cenários mais comuns, o roteiro de verificação, as orientações oficiais que confirmamos e o que fazer se o golpe já aconteceu.
Resumo rápido
- Voz e vídeo, isoladamente, não bastam para confirmar identidade. Toda ordem de pagamento por áudio, vídeo ou mensagem exige confirmação em outro canal.
- Defina palavra-código com familiares e com a equipe financeira, e use só em situações reais.
- Pagamentos e Pix acima de um limite devem ter dupla aprovação por pessoas diferentes, sem exceção para “pedido do chefe”.
- Se pagou, acione o banco na hora. O Banco Central prevê o Mecanismo Especial de Devolução (MED) do Pix, pedido pelo app ou canal do banco.
- Ative a verificação em duas etapas no WhatsApp e nunca informe o código recebido por SMS.
Como esses golpes funcionam
Voz clonada é a imitação da voz de uma pessoa por um programa de IA treinado com gravações dela, como áudios de redes sociais, vídeos e entrevistas. Deepfake é o conteúdo de vídeo, imagem ou áudio criado ou alterado por IA para parecer real. Os dois dão credibilidade a golpes que já existiam.
O golpe do “CEO” ou do financeiro
O criminoso se passa por diretor, sócio ou fornecedor e pede um pagamento fora do fluxo normal: uma transferência urgente, a troca da conta de um fornecedor, o pagamento de um boleto “confidencial”. O contato chega por mensagem, ligação com voz clonada ou até chamada de vídeo. O pedido pode explorar sigilo e pressa.
O alvo costuma ser quem tem acesso ao dinheiro: financeiro, contabilidade, secretaria executiva, tesouraria. Os dados para montar a história vêm de redes sociais, do site da empresa e de vazamentos.
O falso parente no WhatsApp
Aqui o golpista pode usar um número novo (“troquei de celular”) ou uma conta clonada, e pede Pix para pagar uma conta urgente. Com voz clonada, o áudio reforça a história. A Febraban descreve o padrão: criminosos tomam contas, enviam mensagens aos contatos se passando pela pessoa e pedem dinheiro emprestado, com urgência falsa e Pix para contas de terceiros. Na empresa, o mesmo roteiro aparece com o “dono” pedindo um favor ao funcionário.
Sinais de alerta
Não confie em detalhes técnicos como “a voz soou estranha”. Confie no comportamento do pedido.
- Urgência para pagar “agora”, antes de uma reunião ou do fim do expediente.
- Pedido de sigilo e de que você não confirme com mais ninguém.
- Mudança de conta bancária, chave Pix ou favorecido em pagamento rotineiro.
- Contato por um número, e-mail ou canal que a pessoa nunca usou antes.
- Pedido para pular um passo do processo “só desta vez”.
- Pagamento para conta de terceiro ou pessoa física quando o fornecedor é empresa.
- Insistência em manter a conversa na mesma ligação ou no mesmo chat, sem permitir retorno.
Procedimentos de verificação que funcionam
O roteiro abaixo não exige tecnologia nova. Exige ser aplicado sempre, inclusive ao presidente.
| Situação | Sinal típico | Verificação |
|---|---|---|
| Ordem de pagamento “do diretor” | Áudio ou vídeo pedindo urgência e sigilo | Ligar de volta para o número cadastrado do diretor. Não responder pelo mesmo canal. Exigir segundo aprovador. |
| Troca de conta de fornecedor | E-mail ou mensagem com novos dados bancários | Confirmar por telefone do cadastro antigo com contato já conhecido. Só alterar com registro formal. |
| Familiar pedindo Pix | Número novo, voz parecida, urgência | Perguntar a palavra-código. Ligar para o número antigo ou pedir a alguém próximo que ligue. |
| Videochamada de “executivo” | Imagem estranha, pedido fora do padrão | Encerrar e retornar por canal conhecido. Nenhum pagamento sem aprovação no sistema. |
| Pedido de código recebido por SMS | Alguém se passa por atendimento | Nunca informar. O código é só seu. |
Palavra-código
Uma palavra ou frase combinada antes, que só as pessoas envolvidas conhecem. A Febraban recomenda combinar com família e amigos uma senha ou palavra-chave para situações reais de perigo. Adaptar essa prática à diretoria e ao financeiro é uma recomendação de controle interno, não uma regra bancária. Regras: não escreva em chats, não repita em mensagens, troque depois de usar e não use dados públicos (nome do pet, data de aniversário).
Retorno por canal conhecido
Desligue e ligue de volta para um número que você já tinha, não para o que ligou. Se a pessoa está em viagem, use outro meio previamente cadastrado ou fale com alguém que a acompanha. A Febraban orienta, no caso de falso sequestro e pedidos de parentes, confirmar a identidade de quem está do outro lado e pedir a alguém próximo para ligar de outro telefone.
Dupla aprovação
Nenhum pagamento sai com a aprovação de uma só pessoa acima de um limite definido pela empresa. O segundo aprovador confere o pedido contra o contrato, a nota ou a ordem de compra, e não contra a mensagem recebida. Quem pede e quem aprova nunca são a mesma pessoa.
Regras de pagamento e Pix na empresa
- Cadastro de favorecidos. Só pague para contas previamente cadastradas. Alteração de dados bancários passa por formulário, confirmação por telefone do cadastro antigo e aprovação de duas pessoas.
- Limites e horários. Defina limites por usuário e por transação. Consulte o banco sobre os controles disponíveis para sua conta empresarial; não presuma que regras de pessoa física sejam iguais.
- Sem exceção para urgência. Escreva na política que ordem urgente também segue o roteiro. O diretor verdadeiro vai entender.
- Registro. Guarde mensagens, áudios, números e horários de qualquer pedido suspeito, mesmo que tenha sido recusado.
- Treino. Faça simulações curtas com a equipe financeira, com um pedido falso de áudio, e discuta o que aconteceu.
Empresas que usam IA para monitorar fraude em pagamentos podem ver os conceitos em agentes de IA para prevenção de fraudes no Pix em tempo real. A tecnologia ajuda, mas não substitui a dupla aprovação.
Proteja o WhatsApp e as contas da empresa
Muitos golpes de falso parente e de falso diretor começam com a conta de alguém clonada. O que fazer:
- Ative a verificação em duas etapas, nas configurações da conta. A Febraban orienta ativar a confirmação em duas etapas e nunca informar o código a ninguém. O WhatsApp tem página de ajuda sobre o recurso.
- Nunca informe o código de seis dígitos recebido por SMS. O WhatsApp explica o que fazer ao receber código sem ter solicitado.
- Limite quem vê sua foto de perfil e informações pessoais.
- Para o atendimento da empresa no WhatsApp, siga as recomendações de como integrar IA no WhatsApp com segurança.
- Reduza o que a empresa publica: organogramas com e-mail de cada gestor e áudios longos dos diretores facilitam o trabalho do criminoso.
Se sua empresa estuda usar o assistente de IA do WhatsApp, veja também o guia da Meta AI. Ele não substitui nenhuma das verificações acima.
Se o golpe aconteceu: o que fazer na primeira hora
- Acione o banco imediatamente pelo aplicativo ou canal de atendimento e relate que foi golpe. Informe horário, valor, chave Pix e conta de destino.
- Solicite o MED. O Mecanismo Especial de Devolução é o procedimento do Pix para tentar recuperar valores em situações de fraude. Conteste pelo aplicativo do banco ou procure seu atendimento oficial. Descreva o ocorrido e peça o protocolo; não espere obter um laudo sobre o áudio.
- Observe o prazo. A página de segurança do Pix do Banco Central informa até 80 dias após a transação para solicitar a devolução à instituição. Esse é um limite para o pedido, não um motivo para esperar.
- Se o banco não resolver, a orientação do Banco Central inclui registrar reclamação no BC e procurar Procon ou Judiciário, conforme o caso.
- Registre boletim de ocorrência na delegacia ou no serviço de delegacia online do seu estado, quando houver. Anexe prints, áudios, números e comprovantes. O Banco Central recomenda registrar o BO em paralelo ao contato com o banco. Preserve os arquivos originais, além das capturas de tela.
- Troque senhas e encerre sessões das contas envolvidas e avise contatos se a conta de WhatsApp foi tomada.
- Comunique a diretoria e o jurídico. Se houve incidente com dados pessoais, avalie com o responsável por privacidade a necessidade de comunicar à ANPD e aos titulares, conforme o risco e a regulamentação aplicável.
O MED envolve análise pelas instituições e não promete devolução integral em todos os casos. Por isso a velocidade conta.
Exemplo: escritório de contabilidade em Goiânia
Em um escritório de contabilidade em Goiânia (GO), a analista financeira recebe um áudio que parece ser do sócio principal, pedindo o pagamento de uma guia “atrasada” para uma conta diferente da usual, com o aviso de que ele está em reunião e não pode atender. O caso é ilustrativo.
Com o roteiro, a analista não responde no chat. Liga para o número do sócio que está no cadastro e não consegue falar. Aciona o segundo aprovador, que confere a guia no sistema e vê que o favorecido não é o cadastrado. O pagamento não sai. Ela registra o áudio e o número de origem e comunica a diretoria. Nenhuma tecnologia detectou o áudio falso. Quem barrou foi o processo.
Erros comuns
- Tentar “ouvir se é falso”. Voz e vídeo bons enganam. Verifique o pedido, não a qualidade do áudio.
- Responder pelo mesmo canal. Se a conta está clonada, você fala com o criminoso.
- Abrir exceção para o chefe. O golpe do falso diretor vive disso.
- Usar palavra-código previsível ou enviá-la por mensagem.
- Demorar para acionar o banco por vergonha ou para “tentar resolver sozinho”.
- Esquecer de guardar provas antes de apagar as conversas.
Perguntas frequentes
Existe ferramenta que detecta voz clonada com certeza?
Não presuma certeza. Um detector pode errar ou não cobrir o conteúdo recebido. Sua política de pagamentos precisa funcionar mesmo quando não for possível saber como o áudio foi produzido. Mantenha a confirmação por canal conhecido.
Palavra-código serve para empresa?
Serve para pequenos grupos, como diretoria e financeiro, em pedidos fora do padrão. Para pagamentos, o controle principal continua sendo a dupla aprovação e o cadastro de favorecidos.
O MED devolve todo o dinheiro?
Não. O Banco Central informa que a recuperação depende da análise da fraude e da existência de recursos nas contas envolvidas. Ela pode ser parcial ou não acontecer. Peça o MED o quanto antes.
Preciso de boletim de ocorrência para pedir o MED?
A orientação do Banco Central é procurar o banco imediatamente e registrar o BO em paralelo. Não adie o primeiro contato enquanto prepara o registro policial. Siga as instruções oficiais para enviar a documentação e mantenha os protocolos.
Como tratar a ocorrência com a equipe?
Priorize conter a perda, preservar provas e entender por que o controle falhou. Revise acessos, limites e aprovações. Questões disciplinares dependem dos fatos e da análise de RH e jurídico; a investigação precisa permitir relatos rápidos e completos.
Fontes e leitura recomendada
- Banco Central: segurança no Pix e prazo de solicitação do MED
- Febraban: golpes mais comuns contra idosos e como evitá-los (palavra-chave e confirmação por outro telefone)
- Febraban: campanha nacional antifraudes (golpe do WhatsApp)
- WhatsApp: sobre a verificação de dois passos
- WhatsApp: recebimento de código de verificação sem solicitação
- FBI/IC3: uso de IA generativa em fraudes financeiras
- Banco Central: medidas para vítimas de golpe com Pix
- ANPD: comunicação de incidentes de segurança
- CERT.br: Cartilha de Segurança para Internet