Radar IA 20 de outubro de 2026
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Rasuras e acréscimos manuscritos: preparar a consulta com IA

Registre rasuras, acréscimos e substituições em manuscritos antes da consulta com IA. Preserve estados do texto e confira as relações na imagem original.

Rasuras e acréscimos manuscritos: preparar a consulta com IA
Imagem: capa editorial — Tutoriais e Guias

Para consultar documentos com rasuras usando IA, registre separadamente o texto riscado, o acréscimo e a relação entre eles. Uma transcrição limpa pode apagar justamente a mudança que o pesquisador precisa investigar. Preserve a imagem original, indique a região da alteração e só produza uma leitura consolidada depois de uma conferência humana.

O objetivo é permitir perguntas como “qual expressão foi substituída?” sem transformar um cancelamento em informação válida ou uma anotação lateral em parte da frase. O procedimento abaixo serve para arquivos pessoais, centros de memória e equipes que digitalizam correspondência histórica. Ele trata do estado do texto, inclusive quando todas as palavras são legíveis.

Resumo rápido

  • Texto visível e texto mantido pelo autor são campos diferentes.
  • Registre cancelamento, acréscimo e possível substituição como ocorrências separadas.
  • Vincule cada ocorrência à imagem e à região onde aparece.
  • Não atribua autoria ou cronologia só pela posição da anotação.
  • Teste a recuperação das duas leituras antes de liberar o acervo para consultas.

Por que uma rasura precisa sobreviver à transcrição

Imagine uma carta em que “terça” está riscado e “quinta” aparece acima. Se o arquivo de consulta contiver apenas “quinta”, a pesquisa sobre a alteração perde sua evidência. Se contiver “terça quinta”, uma busca pode tratar as duas palavras como compromissos diferentes. Nenhuma dessas representações comunica o que aconteceu na superfície.

A distinção tem apoio nas diretrizes da Text Encoding Initiative, a TEI: o elemento del representa supressão indicada na fonte, enquanto add representa acréscimo. As diretrizes também distinguem cancelamento de dificuldade de leitura. Esses conceitos ajudam a desenhar o registro, mesmo quando o projeto usa planilha em vez de XML.

Não transforme todo traço em supressão. Sublinhado, dobra, mancha e marca de conferência podem atravessar letras. A classificação deve admitir “marca sem função confirmada”. O revisor pode identificar o desenho sem conseguir concluir sua intenção. Essa cautela preserva alternativas em vez de fabricar uma versão definitiva.

A preparação geral de trechos difíceis está no guia de OCR de manuscritos e marcação de ilegibilidade. Aqui, a pergunta adicional é outra: como representar uma intervenção textual quando o conteúdo permanece visível?

Monte uma ficha por intervenção, antes de pedir o resumo

Escolha uma página com alterações variadas e desenhe o formulário a partir dela. Use um identificador estável para o documento, outro para a imagem e outro para cada intervenção. Uma ocorrência pode abranger várias palavras, mas não deve reunir mudanças distantes apenas porque parecem tratar do mesmo assunto.

Campo O que registrar O que evitar
Conteúdo visível Palavras que podem ser lidas Completar pelo contexto sem aviso
Intervenção observada Traço, escrita acima, escrita lateral Chamar toda marca de correção
Função proposta Supressão, acréscimo ou indefinida Confundir descrição com certeza
Relação Identificador do trecho relacionado Juntar tudo em uma frase
Revisão Responsável e justificativa Aceitar a inferência da IA como prova

Inclua um campo de localização: página, lado da folha e região na imagem. Acrescente o tamanho da imagem usada para marcar coordenadas. Uma posição definida sobre uma miniatura não deve ser aplicada diretamente a uma fotografia maior. O guia de coordenadas de trechos em revisões humanas aprofunda esse vínculo.

Separe também o estado da revisão: recebido, proposto pela IA, conferido e pendente. São estados do seu fluxo, não propriedades históricas do documento. Essa diferença evita que uma etiqueta “aprovado” seja interpretada como aprovação de uma decisão registrada na carta.

Faça a extração em duas passagens controladas

Na primeira passagem, peça apenas observações: transcrever o que está visível e localizar marcas, sem produzir uma versão corrigida. Entregue uma imagem com contexto suficiente para distinguir linhas e margens. Um recorte muito fechado pode esconder a seta que conecta um acréscimo ao corpo do texto.

Observe a imagem e registre cada intervenção separadamente.
Para cada ocorrência, devolva: id, texto_visivel, marca_observada,
localizacao, funcao_proposta, trecho_relacionado e duvida.
Não monte uma leitura final. Não atribua autor ou data.
Se a função da marca não estiver clara, use indefinida.

Na segunda passagem, um revisor compara a ficha com a imagem. Só depois solicite duas saídas: uma transcrição que mantenha as intervenções e uma leitura de consulta, quando houver base para ela. Diga qual será usada na busca. A primeira guarda o percurso; a segunda facilita perguntas sobre a leitura selecionada.

Por exemplo, registre “texto suprimido: terça; acréscimo acima da linha: quinta; relação proposta: substituição”. Não basta escrever “terça foi corrigida para quinta” se a ligação ainda não foi conferida. Havendo dúvida, mantenha as ocorrências sem decidir que formam uma substituição.

Não peça uma probabilidade numérica sem critério de avaliação. Prefira uma justificativa verificável: “há uma seta ligando o acréscimo à palavra riscada” ou “não há sinal que indique o ponto de inserção”. A justificativa permite que outra pessoa conteste a decisão.

Prepare a consulta sem apagar os estados do texto

Ao criar uma base consultável, mantenha a transcrição anotada perto da leitura consolidada. Se a busca usa fragmentos, cada fragmento deve carregar documento, página, ocorrência e estado textual. O termo técnico RAG descreve a recuperação de conteúdo para apoiar a resposta da IA; a recuperação só ajuda quando o trecho preserva seu contexto.

Defina duas rotas de pergunta. “Qual foi a leitura adotada?” usa a versão conferida de consulta. “O que mudou no documento?” recupera as ocorrências e suas relações. Na resposta, faça a IA informar qual rota utilizou e apontar o trecho de origem. O leitor precisa distinguir uma síntese editorial de uma inscrição visível.

A TEI permite relacionar transcrição e fac-símile, inclusive regiões de uma imagem. O ALTO, mantido pela Library of Congress, descreve texto e organização espacial resultantes de reconhecimento. São referências para interoperabilidade; não significam que qualquer programa de OCR vai reconhecer automaticamente a intenção de uma rasura.

Uma planilha inicial pode usar uma linha por ocorrência e outra tabela para relações. Isso evita duplicar a mesma anotação em todas as versões. Se mudar de ferramenta, exporte os identificadores junto dos textos. Recriar nomes de ocorrência em cada importação quebra referências já citadas em pesquisas.

Exemplo: cartas de uma associação cultural em Recife

Considere um caso ilustrativo: uma associação cultural de Recife organiza correspondências sobre apresentações de teatro. Uma carta contém “salão principal” riscado, “pátio” acima da linha e uma nota lateral sobre chuva. A equipe quer consultar onde o evento seria realizado e como a proposta mudou.

O operador cria as ocorrências C17-R1, C17-A1 e C17-N1. Registra o conteúdo de cada uma e sua região. O revisor confirma que o acréscimo se liga à expressão riscada, mas não encontra indicação suficiente de que a nota lateral integra a mesma intervenção. Por isso, a relação de substituição conecta apenas R1 e A1.

A leitura de consulta pode mostrar “pátio” com indicação de que substitui “salão principal”. A nota sobre chuva permanece anotação associada à página. Se alguém perguntar por que houve a mudança, a IA deve dizer que o documento registra as duas informações, mas que a ligação causal não foi estabelecida pela equipe.

Antes de liberar a pesquisa, o responsável testa quatro perguntas: local inicialmente escrito, local acrescentado, presença de nota sobre chuva e motivo da mudança. As três primeiras exigem evidência localizada. A última deve admitir ausência de confirmação. O teste avalia respeito ao documento, sem inventar resultados de produtividade.

Erros comuns

Tratar rasura como ruído visual. Filtros agressivos podem eliminar traços finos ou pontos de inserção. Guarde a captura recebida e documente qualquer versão de contraste usada para leitura. Uma versão tratada deve continuar reconhecível como derivação, com acesso ao arquivo anterior.

Determinar a ordem das mudanças pela posição. Escrever acima da linha não prova que o acréscimo ocorreu depois de todas as outras marcas. Registre a sequência apenas quando houver evidência ou análise responsável. A autoria também pode permanecer desconhecida.

Confundir correção editorial com alteração na fonte. Se o transcritor moderniza uma grafia, isso deve ter etiqueta diferente da intervenção histórica. A fonte não ganhou uma rasura só porque a equipe corrigiu um erro de digitação na transcrição digital.

Usar somente a leitura final para avaliar a IA. Um resumo pode parecer correto e ainda esconder alterações relevantes. Confira se o sistema recupera material cancelado quando a pergunta pede explicitamente os estados anteriores, sem apresentá-lo como informação vigente.

Não registrar divergências entre revisores. Quando duas pessoas discordam sobre o ponto de inserção, preserve ambas as leituras propostas e a decisão adotada, se houver. A divergência é útil para selecionar páginas que precisam de revisão especializada.

Perguntas frequentes

Preciso adotar XML e TEI desde o início?

Não. Uma ficha consistente já permite separar ocorrência, conteúdo e interpretação. Use as diretrizes para compreender as distinções e escolha o formato de acordo com o projeto. Se houver previsão de intercâmbio com um repositório especializado, combine o esquema com seus responsáveis antes de catalogar todo o acervo.

Posso remover o texto riscado da resposta final?

Depende da pergunta e da política editorial. Uma leitura de consulta pode privilegiar o texto mantido, desde que informe a existência da intervenção e permita acessar o registro completo. Para estudar mudanças, excluir a supressão elimina evidência necessária.

A IA consegue identificar quem fez a correção?

Uma sugestão visual não comprova autoria. Não transforme semelhança de letra, cor ou posição em identificação pessoal. Registre o que é observável e encaminhe atribuições relevantes a quem conhece o acervo. Sem confirmação, deixe o autor da intervenção indeterminado.

Como conferir se a busca mistura leitura inicial e final?

Monte perguntas que tenham respostas diferentes em cada estado e confira as fontes recuperadas. Inclua pergunta sobre a alteração em si. Reprove respostas que somem as duas leituras como fatos simultâneos ou apresentem uma substituição ainda não conferida como conclusão.

E se o documento já tiver sido transcrito sem marcas?

Use a transcrição existente como apoio, vinculada à sua proveniência. Reabra a imagem para localizar intervenções e acrescente uma camada de anotações. Não suponha que a ausência de marca no texto digital demonstre ausência de alterações no original.

Fontes e leitura recomendada

Sobre

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